A autocrítica e a baixa autoestima são temas frequentes na psicologia. Neste texto, compartilho uma reflexão a partir da minha experiência pessoal e da prática clínica.
Ao longo da minha trajetória, percebi que havia em mim uma presença constante de autocrítica e de uma sensação de inadequação. Em muitos momentos, isso se expressava como uma forma de me observar de maneira rígida, antecipando julgamentos e restringindo a espontaneidade do que eu dizia, fazia ou ocupava no mundo.
Na psicologia, esse tipo de funcionamento pode ser compreendido como parte da constituição de um self crítico, frequentemente relacionado a experiências repetidas de invalidação subjetiva e a contextos relacionais nos quais a expressão espontânea encontra pouco espaço de reconhecimento.
Em 2019, iniciei um contato mais direto com a música como forma de expressão pessoal. No início, esse movimento estava ligado a um contexto de apoio emocional a alguém próximo em um processo de luto. Aos poucos, no entanto, esse espaço passou a ter outra função: tornou-se um lugar de acesso a aspectos meus que não apareciam com facilidade na linguagem cotidiana.
Esse período aconteceu junto de eventos familiares e emocionais significativos, incluindo situações de adoecimento e perdas importantes. Em momentos assim, é comum que recursos expressivos — como música, escrita ou outras formas de criação — funcionem como formas de organização psíquica e de regulação emocional, como descrevem diferentes abordagens da psicologia clínica.
Com o tempo, percebi que a experiência com a música, especialmente com o blues, me colocava em contato com conteúdos ligados à autocrítica e à sensação de insuficiência. Isso incluía não apenas pensamentos, mas também afetos que, até então, eu não conseguia simbolizar com clareza.
Esse processo não foi imediato. Foi aos poucos que comecei a reconhecer esses padrões internos com mais nitidez e a perceber que eles não eram “verdades sobre mim”, mas formas aprendidas de me relacionar comigo mesma.
Foi nesse contexto que iniciei minha formação em Psicologia (2021–2025). Esse percurso me deu linguagem teórica e clínica para compreender melhor temas como autoestima, autocrítica, sofrimento psíquico e os modos como nos constituímos subjetivamente ao longo da vida.
Na prática clínica, esses temas aparecem com frequência. Vejo pessoas que relatam dificuldade em reconhecer valor em si mesmas, sensação persistente de inadequação, autocrítica intensa e dificuldades de se autorizar em diferentes contextos da vida.
Do ponto de vista clínico, essas experiências não são compreendidas como falhas individuais, mas como modos de funcionamento psíquico que se constroem ao longo da história de cada pessoa e que podem ser elaborados em um processo psicoterapêutico.
Para mim, a psicoterapia não se trata de um caminho de solução rápida ou de transformação linear. Ela é um processo de elaboração, no qual é possível ampliar a compreensão sobre esses modos internos de funcionamento, reconhecer suas origens e construir formas mais flexíveis de relação consigo mesmo.
Recursos expressivos, como a música, podem facilitar o contato com experiências internas e apoiar processos de simbolização.
Hoje, quando falo em “voz”, não me refiro apenas à expressão literal, mas à capacidade de reconhecer a própria experiência interna com menos autocrítica e maior integração. Para mim, esse foi um processo gradual de construção.
Na clínica, esse também é um dos eixos mais frequentes: compreender como certas narrativas internas se formam e como podem ser elaboradas ao longo do trabalho psicoterapêutico.